Domingo, Agosto 08, 2004

"What I love most about rivers is:
You can't step in the same river twice
The water's always changing, always flowing,
But people, I guess, can't live like that
We all must pay a price
To be safe, we lose our chance of ever knowing
What's around the riverbend
Waiting just around the riverbend"

(Alan Menken & Stephen Schwartz in "Just around the riverbend")


Um teclado, um violão...
(Flavia Lopes, agosto de 2004)


Atravessei a geada hibernal sem relatar o mapa ocultando-me na espessa bruma do silêncio - tradução: desapareci novamente.
Seja como for, deixemos as confissões de lado por alguns instantes. Basta-me a certeza de que a vida é uma ode à inevitabilidade; é preciosa demais para condicioná-la ao sonho utópico; excessivamente densa para sufocá-la em prol do adágio que nutre a cultura de massa.
Levantaria falso testemunho se negasse o quanto a minha "to do list" cresce dia após dia: amigos exigem reuniões, seqüências de provas apavoram os dedos, contas e mais contas levam-me à beira da falência, versos e questões pessoais acariciam-me e ferem quando melhor seria adormecer sob o idílio crepuscular da REM.
Voluntária aprisionada neste redemoinho de fatos e história, inicio a crônica.
Durante o afastamento conquistei a lascívia e o desejo, questionei o receio e a conseqüência. Entre um passo em falso e outro, a tempestade amainou, precedendo a bonança. Em tempos de calmaria o indicado é não fazer perguntas ou dissecar a boa fase. "When the gods send you a blessing you don't ask why it was sent" (The prince of Egypt).
Minha família e eu chegamos, enfim, a um consenso. Sem brigas e discussões, sem embustes fatigantes, sem cobranças incisivas. Aonde reina a paz, o lirismo avassalador impera. É o caminho que aspiro trilhar: a essência poética visível a olho nu.
Ah, quantas respostas pertinentes tenho, inúmeras perguntas! Sincronizei, um a um, cada sentido - audição, tato, paladar, visão, olfato e mediunidade:

A audição reverencia a biodiversidade musical; transmite calma, impaciência, rancor, deleite, urgência - o íntimo - desvendando timbres de voz; aniquila a cegueira espiritual; busca a verdade.
O tato rejuvenesce a pele, instiga a voracidade ferina, incendeia o corpo langue; define forma, textura e densidade; transmite afeto, luxúria, prazer, desejo, sofreguidão.
O Paladar abranda o fastio, deleita-se com a voracidade exógena; devora corpos, línguas enroscadas; saboreia a essência dos temperos picantes, ácidos, doces e amargos.
A visão me concede a benção de observar cada ser amado; a beleza espectral do céu, o solstício pungente no cume das montanhas; artefatos de raro encanto; expressões faciais em cada forma de vida.
O olfato é brisa estival, não deixa rastros, mas quando apurado, é capaz de incendiar a mais cética das mentes. Essências cítricas, florais, massalas exóticas, incensos, velas aromáticas; iguarias preparadas com esmero; a respiração atônita, lado a lado, o bálsamo da pele em fogo.
A mediunidade é o cerne libertário ungido a ferro e fogo; herança cíclica, instinto; o dom germinado nas entranhas. É a capacidade de ver além - discernir átomos, matérias e silhuetas imperceptíveis; a efusão mental e física; a razão e o misticismo.

Ah, enigmática? Imagine. Cautelosa? Hmmm... Digamos que adoro metáforas. Para bom entendedor meia palavra basta, ou assim crêem. Quem me conhece sabe muito bem ao que me referi, e mesmo sem saber, a mensagem implícita é cristalina - basta decifrar as palavras, saboreando-as.
Desnudei-me em frases líricas e incógnitas. Viver é como armar o palco de um grande espetáculo: preocupamo-nos tanto com a luz quanto com as trevas; foco e afastamento; a cena principal e as subjacentes; protagonista e coadjuvante; expressão e discurso, sucesso e fracasso; a índole e o dilema; a vida humana (racional ou irracional) e os animais*, erroneamente considerados inferiores.

*Animália, reino que define todos nós. O diferencial está na apatia, egocentrismo, poder, força bruta; na índole corrompida. A sociedade brada aos sete ventos: o intelecto nos distingue.
A nudez por detrás das coxias, a montagem e organização do espetáculo é obra de um só escultor. O que transparecemos inflama a apresentação incógnita e fugaz, oculta o que há no íntimo.

"Suelo presente, esperando en represente,
Baja por las noches me arrulla yo inconsciente
En mi vientre los segundos pasados, cargados
Tatuados en mi espalda empapados aunados
A espamos de llanto y de risa
He andado sin causas sin prisas
Así de lento el momento y no termina
Así de lento cruzando entre las espinas"

(Control Machete in "Si señor")

Lampejo

(Flavia Lopes, julho de 2004)


Não quero ouvir palavras desprezíveis,
Ler a imoral manchete sensacionalista,
Vociferar contra os males deste caos urbano.
Sou tão jovem ainda, vinte e seis anos!
A sobrevivência testemunha o pânico.

Deveria crer em homilias previsíveis?
Sou poeta e não a madre sacrossanta!
Meus nervos pulsam dissecando o infinito,
Tudo o que almejo é o calor proscrito,
Saciar repetidamente o beijo tântrico.

O acaso galga vidas intransponíveis!
Premonição? Ora, é falácia moralista,
A barbárie seleciona os filhos do açoite?
Se assim for, encaminhe-me à foice -
Levo da vida o inevitável e o cântico.

Bloqueio

(Flavia Lopes, julho de 2004)


Divago em busca do silêncio de espadas.
A lua, embebida em véus, obstem meu pulso,
A inspiração dilacera-me como esporas.
Não há poesia, engulo a disparidade sórdida.

Convoco a ira dos céus, a mediunidade abrupta,
Observo meu rosto pálido e cansado através do espelho.

Bloqueio. Introversão. Neurastenia corrosiva.
O corpo langue não responde, adormece.
E adormecido sonha com a saciedade fugaz,
O vão de palavras lancetadas no instante.

Sorvo a ambrosia dos deuses em busca de amparo,
A razão me transmite a garantia profana das línguas em fogo.

Desperto sobre garoa hibernal extasiada,
Vozes tênues murmuram cânticos inaudíveis.
Aniquilo a sede em cada gota de orvalho,
O verso, em bulbo, germina lírios tripartidos.

Evoco a essência felina de meus pulsos cerrados -
Há mais do que uma silhueta bela neste gélido amanhecer.

"Feel the pain, talk about it
If you're a worried man - then shout about it
Open hearts - feel about it
Open minds - think about it
Everyone - read about it
Everyone - scream about it!
Everyone - read about it, read about it
Read it in the books in the crannies and the nooks
There are books to read"

(Tears for Fears in "Sowing in the seeds of love")


Flavia Lopes, extirpado às 4:10 AM








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