Quarta-feira, Outubro 20, 2004
"Friends will be friends,
When you're in need of love,
They give you care and attention,
Friends will be friends,
When you're through with life and all hope is lost,
Hold out your hand 'cuz friends will be friends
Right till the end."
( Queen in "Friends will be friends")
Amizade
(Flavia Lopes, outubro de 2004)
Falar a respeito dos meus amigos é algo ao mesmo tempo prazeroso e complexo. Expressar o quanto cada um engrandece a minha existência é uma verdadeira benção, porém, quem seria capaz de descrever uma extensão de si mesmo com tamanha destreza?
Amizade é um termo de que muitos fazem uso descuidadamente, transforma-se em brisa passageira. Um fogo-fátuo intenso, cegante e logo esfria como o inverno mais rigoroso.
A amizade é sacrossanta, destinada a poucos. Temos colegas, parceiros, a famosa "galera", mas amigos? Estes são os que contamos nos dedos, não apenas devido à quantidade, mas por que a mão representa o toque, o afeto, o cuidado. Toque este que é a amálgama do sentimento fraternal, o vórtice da união. Ao nos declararmos é necessário adocicar os lábios, sorver o mel de cada sílaba. É preciso conhecer a alma benquista deste ser humano que ao mesmo tempo conforta e atordoa.
É indispensável que sejamos unos e como disse São Francisco: amar, a fim de que sejamos amados. Sem esperar nada em troca além da expressão de alegria na face daqueles cujo tormento rouba o sono e dilacera a paz.
Inicio o meu post, após meses e meses afastada (por razões que comentarei em breve). O recomeço só seria verdadeiro se falasse a respeito de indivíduos (pois são únicos) iluminados, meus amigos de paz e guerra, de madrugadas insones, luares, poesia, música, ativismo. Amigos de ontem e hoje, verões calcinantes e outonos desesperadores. Amigos que, ao longo do tempo, me carregaram nos braços e me ampararam. Amigos por quem abriria mão de minha própria vida.
O último final de semana foi perfeito, estava precisando de dias assim para renovar o meu espírito!
No sábado revi a Quécia, amiga dos tempos de colégio. Fomos para um barzinho na Glória, conversamos a noite inteira sem parar.
É claro que nos telefonamos sempre, mas há meses não a via, ora por problemas pessoais, ora por falta de tempo. Ambas temos vidas bastante atribuladas.
Quando estudávamos juntas, recebi a alcunha de Filhinha e todas nós (éramos seis) a chamávamos de Mamãe, por ser mais velha. O apelido perdura até hoje, por mais que o grupo tenha se dissipado, resumindo-se a nós duas:
Quécia,
É, amiga! Nos conhecemos há doze anos, desde os idos tempos da sétima série. Quem poderia imaginar que este laço perduraria tanto? Quem? Tu e eu...
A cada reencontro percebo o quanto mudamos sem perder, contudo, a nossa essência. Os mesmos gestos, as mesmas psicoses - leia-se pirações involuntárias (risos). As gargalhadas que recuperam as forças, a lembrança do passado, tão vívida. Histórias que se transformaram em lendas...
Carregamos na bagagem mais de uma década e temos outras tantas a percorrer.
Nossa realidade mudou, viramos dos pés a cabeça, mas nos reerguemos com toda a garra, apesar das intempéries que ofuscaram o nosso caminho.
Felicidade é ter a certeza de que ainda nos sentaremos bem velhinhas, lado a lado, fazendo tricô, cozinhando para os netos - os futuros herdeiros (risos).
No domingo, ah! Outra surpresa agradabilíssima! Finalmente encontrei a minha melhor amiga. Parece estranha tal afirmativa? Sim, mas é a verdade. Nos conhecemos há cerca de um ano, temos os mesmos gostos, personalidades idênticas, a mesma forma de se expressar, até as intempéries se equiparam.
A Naty é escritora, como eu, ama o belo, e por amar a beleza, é além de sensível, extremamente habilidosa, dinâmica, compreensível, apaziguadora. Pena que moramos um tanto distantes uma da outra...
Ela veio me visitar, fez festa nos gatinhos, ouvimos música, assistimos "Irmão Urso" (Disney) e tagarelamos ininterruptamente enquanto nos empanturrávamos de chocolate (risos).
Era como se nos conhecêssemos de outras vidas, algo que ela até comentou. Foi como me senti também:
Naty,
Conhecer-te foi, sinceramente, uma das melhores coisas que já me aconteceu. Sequer consigo encontrar as palavras corretas para expressar o quanto te admiro. Minha melhor amiga, companheira, sensitiva, escritora talentosíssima (hei de ver as suas crônicas publicadas algum dia), kardecista, vegetariana, amante da vida como um todo, humana em letras garrafais, carinhosa, bem-humorada, culta, inteligente... Se narrar todas as suas qualidades terei que escrever dois posts!
Combinamos em tudo, ao desabafarmos é como se estivesse falando comigo mesma.
Dissemos anteriormente que os anjos conspiram a nosso favor, mas creio que a afirmativa vai além. Os espíritos entrelaçaram este vínculo desde os primórdios dos tempos.
No futuro, contaremos aos nossos filhos e netos a história desta amizade tão intensa e nos regozijaremos ao perceber que estávamos certas. Nada terreno ou astral seria capaz de nos dissociar.
Adoro-te, bem sabe! Obrigada por tudo...
Em tempo! Gostaria de fazer um adendo para todos os que, porventura, lerem este meu ensaio-crônica.
Lembrem-se de "If tomorrow never comes" (Renato Russo a regravou em "Stonewall celebration concert" modificando ligeiramente a letra):
"'Cause I have lost loved ones in my life,
Who never knew how much I loved them
Now I live with the regret
That my true feelings for them
Never were revealed
So I made a promise to myself
To say each day how much they mean to me
And avoid that circumstance
Where there's no second chance
To tell them how I feel"
Jamais se esquivem. Amizades extinguem-se por falta de cuidado e afeição.
Lembrem-se de tudo o que a vida já lhes ofertou e o tanto que lhes foi roubado, ou pela má sorte do destino ou por nos trancafiarmos a sete chaves.
Olhem nos olhos, não desviem a fronte. Desnudem-se, sejam verdadeiros em cada sentença, ou se não for possível (afinal há momentos em que seria impossível expor-se tão impetuosamente), sejam fiéis aos seus princípios.
No final das contas, só colhemos frutos quando os plantamos. E plantar não significa ter uma vida regrada, carreira, negócios, contas bancárias. Estabilidade representa amadurecimento, integridade espiritual, desapego a artefatos de pouca valia e integração total e completa com todos os que fazem parte da nossa existência e que, sem os quais, sequer existiríamos.
"Passeando pela cidade destruída,
Bombas foram lançadas
E tudo reduzido a pó,
Na praça aberta
Sou o colar de livres pensamentos,
Quem quer comprar o jornal de ontem
Com notícias de anteontem?"
(Barão Vermelho in "Fúria e Folia")
Sob o signo de Gêmeos
(Flavia Lopes, outubro de 2004)
Dizem que os geminianos são duas caras,
Cínicos, egocêntricos, ardilosos,
Um lado terno e dócil, o outro, perverso -
Matilhas à espreita, assim crêem.
Dizei-me agora o que é falsidade,
Dissimular tão somente para ferir outrem?
O pícaro, que a todos espezinha?
Não! Escondo dos covardes o meu íntimo!
Megalomania? Quando alguém assim faria
Das tripas coração, prostrando-se
Com os joelhos nus ao frio solo calcinado,
Rogando, Senhor: Olhe teus filhos!
Quem abriria mão de seu conforto,
Beleza, amor, carreira, idílios dispersos, ar?
Quem, como eu, se envolve tanto?
Ferida até o âmago deste meu corpo lívido.
Sim, nasci sob o signo de gêmeos,
Ascendente em libra, lua em capricórnio...
Nada me descreve ou estigmatiza!
Humana, acima de tudo, mulher, guerreira.
Sensibilidade indescritível, torpor, intuito!
Concedei-me o verso derradeiro!
Deixai que compreendam a penosa tarefa
Recebida! Escutem o meu relato!
O lirismo assim me afeiçoou -
Branda e selvática, fiel e intensa, crítica -
Libertina entre quatro paredes,
Solidária por amor à vida, sem restrições.
Almejo o mar, o crepúsculo, o luar insano,
A lei exonerada em cada etnia -
Liberdade de expressão, o prélio sem fim,
Acreditar na justiça dos homens.
Porém, cá estamos, sem remorsos,
Sobrevivendo a tísica dissensão social -
Cada um distante, enaltecendo a si,
Todos vasculhando um abrigo efêmero!
Sim, pendemos entre a benevolência
E contas bancárias, faturamentos, poder.
Professo o meu desprezo umbilical:
Sou espectro, carícia, andarilha, lúbrica!
Deuses da terra, lhes dedico a elegia,
Ora impiedosa como os silfos, ora bela,
Revelando a amálgama deste pulso!
Batismo: Flavia Lopes; legado: poesia
"Gemini, gemini, geminiano,
Este ano vai ser o seu ano afinal,
Ou senão, o Destino não quis"
(Chico Buarque in "Sentimental")
Flavia Lopes,
extirpado às 12:43 AM
Domingo, Agosto 08, 2004
"What I love most about rivers is:
You can't step in the same river twice
The water's always changing, always flowing,
But people, I guess, can't live like that
We all must pay a price
To be safe, we lose our chance of ever knowing
What's around the riverbend
Waiting just around the riverbend"
(Alan Menken & Stephen Schwartz in "Just around the riverbend")
Um teclado, um violão...
(Flavia Lopes, agosto de 2004)
Atravessei a geada hibernal sem relatar o mapa ocultando-me na espessa bruma do silêncio - tradução: desapareci novamente.
Seja como for, deixemos as confissões de lado por alguns instantes. Basta-me a certeza de que a vida é uma ode à inevitabilidade; é preciosa demais para condicioná-la ao sonho utópico; excessivamente densa para sufocá-la em prol do adágio que nutre a cultura de massa.
Levantaria falso testemunho se negasse o quanto a minha "to do list" cresce dia após dia: amigos exigem reuniões, seqüências de provas apavoram os dedos, contas e mais contas levam-me à beira da falência, versos e questões pessoais acariciam-me e ferem quando melhor seria adormecer sob o idílio crepuscular da REM.
Voluntária aprisionada neste redemoinho de fatos e história, inicio a crônica.
Durante o afastamento conquistei a lascívia e o desejo, questionei o receio e a conseqüência. Entre um passo em falso e outro, a tempestade amainou, precedendo a bonança. Em tempos de calmaria o indicado é não fazer perguntas ou dissecar a boa fase. "When the gods send you a blessing you don't ask why it was sent" (The prince of Egypt).
Minha família e eu chegamos, enfim, a um consenso. Sem brigas e discussões, sem embustes fatigantes, sem cobranças incisivas. Aonde reina a paz, o lirismo avassalador impera. É o caminho que aspiro trilhar: a essência poética visível a olho nu.
Ah, quantas respostas pertinentes tenho, inúmeras perguntas! Sincronizei, um a um, cada sentido - audição, tato, paladar, visão, olfato e mediunidade:
A audição reverencia a biodiversidade musical; transmite calma, impaciência, rancor, deleite, urgência - o íntimo - desvendando timbres de voz; aniquila a cegueira espiritual; busca a verdade.
O tato rejuvenesce a pele, instiga a voracidade ferina, incendeia o corpo langue; define forma, textura e densidade; transmite afeto, luxúria, prazer, desejo, sofreguidão.
O Paladar abranda o fastio, deleita-se com a voracidade exógena; devora corpos, línguas enroscadas; saboreia a essência dos temperos picantes, ácidos, doces e amargos.
A visão me concede a benção de observar cada ser amado; a beleza espectral do céu, o solstício pungente no cume das montanhas; artefatos de raro encanto; expressões faciais em cada forma de vida.
O olfato é brisa estival, não deixa rastros, mas quando apurado, é capaz de incendiar a mais cética das mentes. Essências cítricas, florais, massalas exóticas, incensos, velas aromáticas; iguarias preparadas com esmero; a respiração atônita, lado a lado, o bálsamo da pele em fogo.
A mediunidade é o cerne libertário ungido a ferro e fogo; herança cíclica, instinto; o dom germinado nas entranhas. É a capacidade de ver além - discernir átomos, matérias e silhuetas imperceptíveis; a efusão mental e física; a razão e o misticismo.
Ah, enigmática? Imagine. Cautelosa? Hmmm... Digamos que adoro metáforas. Para bom entendedor meia palavra basta, ou assim crêem. Quem me conhece sabe muito bem ao que me referi, e mesmo sem saber, a mensagem implícita é cristalina - basta decifrar as palavras, saboreando-as.
Desnudei-me em frases líricas e incógnitas. Viver é como armar o palco de um grande espetáculo: preocupamo-nos tanto com a luz quanto com as trevas; foco e afastamento; a cena principal e as subjacentes; protagonista e coadjuvante; expressão e discurso, sucesso e fracasso; a índole e o dilema; a vida humana (racional ou irracional) e os animais*, erroneamente considerados inferiores.
*Animália, reino que define todos nós. O diferencial está na apatia, egocentrismo, poder, força bruta; na índole corrompida. A sociedade brada aos sete ventos: o intelecto nos distingue.
A nudez por detrás das coxias, a montagem e organização do espetáculo é obra de um só escultor. O que transparecemos inflama a apresentação incógnita e fugaz, oculta o que há no íntimo.
"Suelo presente, esperando en represente,
Baja por las noches me arrulla yo inconsciente
En mi vientre los segundos pasados, cargados
Tatuados en mi espalda empapados aunados
A espamos de llanto y de risa
He andado sin causas sin prisas
Así de lento el momento y no termina
Así de lento cruzando entre las espinas"
(Control Machete in "Si señor")
Lampejo
(Flavia Lopes, julho de 2004)
Não quero ouvir palavras desprezíveis,
Ler a imoral manchete sensacionalista,
Vociferar contra os males deste caos urbano.
Sou tão jovem ainda, vinte e seis anos!
A sobrevivência testemunha o pânico.
Deveria crer em homilias previsíveis?
Sou poeta e não a madre sacrossanta!
Meus nervos pulsam dissecando o infinito,
Tudo o que almejo é o calor proscrito,
Saciar repetidamente o beijo tântrico.
O acaso galga vidas intransponíveis!
Premonição? Ora, é falácia moralista,
A barbárie seleciona os filhos do açoite?
Se assim for, encaminhe-me à foice -
Levo da vida o inevitável e o cântico.
Bloqueio
(Flavia Lopes, julho de 2004)
Divago em busca do silêncio de espadas.
A lua, embebida em véus, obstem meu pulso,
A inspiração dilacera-me como esporas.
Não há poesia, engulo a disparidade sórdida.
Convoco a ira dos céus, a mediunidade abrupta,
Observo meu rosto pálido e cansado através do espelho.
Bloqueio. Introversão. Neurastenia corrosiva.
O corpo langue não responde, adormece.
E adormecido sonha com a saciedade fugaz,
O vão de palavras lancetadas no instante.
Sorvo a ambrosia dos deuses em busca de amparo,
A razão me transmite a garantia profana das línguas em fogo.
Desperto sobre garoa hibernal extasiada,
Vozes tênues murmuram cânticos inaudíveis.
Aniquilo a sede em cada gota de orvalho,
O verso, em bulbo, germina lírios tripartidos.
Evoco a essência felina de meus pulsos cerrados -
Há mais do que uma silhueta bela neste gélido amanhecer.
"Feel the pain, talk about it
If you're a worried man - then shout about it
Open hearts - feel about it
Open minds - think about it
Everyone - read about it
Everyone - scream about it!
Everyone - read about it, read about it
Read it in the books in the crannies and the nooks
There are books to read"
(Tears for Fears in "Sowing in the seeds of love")
Flavia Lopes,
extirpado às 4:10 AM
Segunda-feira, Junho 28, 2004
"Todos os dias antes de dormir
Lembro e esqueço como foi o dia:
'Sempre em frente,
Não temos tempo a perder.
Nosso suor sagrado
É bem mais belo que esse sangue amargo,
E tão sério
E selvagem.' "
(Legião Urbana in "Tempo Perdido")
Ponteiros, espaço e inevitabilidade
(Flavia Lopes, junho de 2004)
O tempo é um conceito, uma forma de controle pessoal. Definir a hora e o que deve ser feito; programar como e quando é necessário dedicar-se a uma empreitada ou comparecer em tal ambiente; precaver-se a fim de evitar atrasos, cobranças ou erros. É a forma como delimitamos o espaço, a linha que cataloga dias, meses e anos, o vão de experiência adquirida que separa crianças de adultos.
Os pragmáticos afirmam que o tempo é a base mais segura para estruturar ações concretas analisando, minuciosamente, cada passo; uma carta na manga a favor da praticidade e da logística dos fatos.
A poesia, em contrapartida, diz que o tempo depende da forma como observamos o mundo e a nós mesmos. Avalia os relacionamentos de criatura para criatura, o íntimo. Vinte e quatro horas podem significar uma eternidade; a diferença de idade torna-se irrisória, de acordo com a situação.
Os filósofos compreendem que o tempo denota sabedoria, engrandecimento, mas destacam a inevitabilidade. Sofrem a ação do mesmo, mas não possuem clarividência para evitar o futuro. O presente transforma-se no ponto vital de cada relação ou na eterna dualidade entre o ser racional e a consciência sensitiva.
A sociedade prega que o tempo lhes beneficia. Trabalho, luta, o eflúvio de idéias, progresso tecnológico e científico exigem estudo, dedicação, um longo período em busca de respostas e perspicácia. A História, assim como a arte e a literatura, fala por si, consolidando a veracidade de tais fatos.
Para mim, o tempo é um quadro negro - cada giz traceja a possibilidade de um caminho incerto; filetes coloridos sobrepõem-se em um gráfico indecifrável.
A tonalidade mais vibrante destaca o EU responsável, cônscio, emocional - o cerne: estudar, completar uma tarefa, valorizar amigos e entes, cuidar das obrigações diárias, auxiliar quem necessita e reservar várias quadras do ponteiro para o desejo, a inspiração, o sonho, a fala visceral.
As demais cores singram rumos desconhecidos e atraem a visão. Uma a uma, transmitem o brilho da utopia insinuando que é possível realizá-las. Certificam-se de que a linha do horizonte nada mais é senão um retrocesso. Ultrapassá-la condicionaria a própria existência, limitando o futuro. Galgar além do abismo sem temer a queda exige coragem, engloba tudo o que a mente possui e restringe.
O vórtice final da estrada, o pináculo do ciclo que rege os ventos é um espaço em aberto..
Faz sentido esquematizar como tudo, um dia, pode vir a ser - descendentes, profissão, bens, negócios, relacionamentos e afins? Se a resposta é afirmativa, então, por quê? O que está sendo erguido e moldado hoje para concretizar o que almejam? Não há futuro sem a batalha diária. O tempo se desvenda de acordo com nossa perspectiva e atuação concreta.
Decerto seria bem mais fácil se dissesse: conquistarei o reconhecimento desejado porque isto é justiça. Terei meu próprio restaurante com minhas inúmeras receitas pessoais porque isto é justiça. Serei feliz ao lado de um grande amor, meus gatos, filhos e netos, porque isto é justiça.
Como bem disse o personagem de Ian Hart - Dave Carr - em "Terra e Liberdade" (Ken Loach): "Ideas does not exist in a book or a paper, it has to be real for real people".
Não importa o que é justo ou deixa de ser. Se todos nós recebêssemos o tanto que merecemos não haveria crianças esquálidas morrendo de fome ou gravemente enfermas; animais não seriam feridos covardemente; os que tanto prezam e amam não sofreriam com a ganância, a inveja ou a fatalidade - deixando um rastro de mágoa, doença, rancor, cicatrizes e uma ferida exposta.
Nada é eqüitativo e não, não é justo. Urgente é talhar o agora, pavimentar cada bloco de cimento da estrada. Todos possuem um destino, uma predestinação, mas nada, literalmente nada, cai de mãos beijadas em nosso colo - por maior que seja o poder aquisitivo. Dinheiro compra tudo, ou quase tudo, mas não respeito. Estrutura financeira com o patrimônio de antepassados pode dar segurança a curto ou longo prazo, mas o prazer de evoluir, o talento inato de cada um, o sonho de construir e perpetuar nosso sangue e nome, diz respeito ao que fazemos neste exato momento.
A existência é engrandecida e táctil quando volvemos o olhar para o nosso âmago e questionamos o fundamento, o ápice e a razão de nossos ensejos.
O que é reconhecido e destilado hoje será o vinho tinto envelhecido servido amanhã.
Dilate as narinas, apure o tato, sorva o paladar, entregue-se à tensão climática, viva o tempo presente.
"Eu vou sem lenço, sem documento,
Nada no bolso ou nas mãos,
Eu quero seguir vivendo, amor,
Eu vou, por que não? Por que não?"
(Caetano Veloso in "Alegria, Alegria")
Interiorização ou a saga derradeira
(Flavia Lopes, junho de 2004)
Reestruturei os alicerces do conhecimento,
Senti os dedos do tempo em chamas.
O céu espectral abençoa a noite
Dos filhos cegos - os herdeiros.
Buscam paz, mas não vêem
A cobiça devorando o ser!
A morada regozija-se,
Meu destino incompleto
Saúda os corcéis do vento!
Feliz, caiando tijolos rubros,
A hidra febril ergue os braços:
Redescobri a estrada que trilhei.
O tempo é relativo, não tarda,
Nada me intercepta, retém,
Singro talhando o infinito!
Meu corpo embevecido
Urge a transmutação.
A inatividade retalha asas!
Faça emanar o livre-arbítrio
De teu acólito - o pensamento,
Identifique-se, não tema o porvir.
Viver oposto à existência do mistério
É relegar a própria sorte ao esquecimento.
"What you gonna do when your friends have gone away
And deserted you
You'll have to be strong
24 hours can seem so long
You're taught to not care
And then not realize this world is meant to share"
(Simply Red in "Your mirror")
Flavia Lopes,
extirpado às 5:29 AM
Sábado, Junho 05, 2004
"Nas filas dos pontos de ônibus procurando aonde ir
São todos seus cicerones, fogem pra não desistir
Dos seus salários de fome e a esperança que eles têm
Neste filme, como extras, todos querem se dar bem"
(Cazuza in "Um trem pras estrelas")
Cinco sentidos
(Flavia Lopes, junho de 2004)
Os personagens trágicos, antítese dos grandes heróis com rosto de bom moço, sempre me atraíram. Um exemplo clássico é "Os três mosqueteiros" (Alexandre Dumas). O jovem D'artagnan é o centro das atenções, o queridinho de todos - quase tão angelical quanto o Robin. Ora! Como destacá-lo se o mesmo livro possui um dos melhores personagens já criado: Athos, sedutor, amargurado, sombrio, irônico.
Em "Ivanhoe", o épico de Walter Scott, todos se desmancham a cada aparição do Cavaleiro Negro e do mocinho que intitula o romance. Ah, mas e todo o conflito do vilão, Brian de Bois-Gilbert, o sacrifício no final para salvar a vida de Rebecca? Definitivamente é um homem interessante que, ao longo da história, modifica a forma de pensar, dividido entre a Ordem dos Templários e o amor pela filha de um comerciante judeu. Bois-Gilbert dá corpo e forma à história - o gosto da traição, a leviandade do clero, o ódio, a cobiça e a redenção.
Ao longo do século a literatura nos agraciou com protagonistas brilhantes.
Philip Carey é o menino que supera provações, sobrevive ao fanatismo religioso do tio, às limitações de sua condição quase escrava e repressora, o preconceito de todos que o consideram um inválido em "Servidão Humana" (W. Sommerset Maugham).
"Macunaíma", o herói sem nenhum caráter de Mario de Andrade fala por si. Quem poderia discordar?
Algumas mulheres se destacam por execrarem a postura submissa e retrógrada de uma heroína clichê. É o que vemos em "Halo Jones", um dos clássicos de Alan Moore. O quadrinista nos presenteia também com "V for Vendetta", uma visão da Inglaterra no século 20 através dos olhos de um ex-prisioneiro e cobaia de laboratório - V, o anarquista que jamais revela o rosto.
Outro grande personagem dos quadrinhos é Warren Worthington III, o Arcanjo, um dos primeiros X-men. Menos visado, mas tão significativo quanto, é Destrutor, Alex Summers, irmão do mauricinho engomado Ciclope.
Das revistas e livros para o cinema descobrimos interpretações primorosas como a de Benno Fûrmann (Bodo) em "A princesa e o guerreiro" (Tom Tykwer). O que dizer, então, de Rosana Pastor que encarna Blanca, voz ativa do Poum - um grupo de guerrilha formado em oposição a Franco. A milícia que baniu os fascistas de Madrid (entre outras cidades).
Continuaria listando nomes se acaso pudesse. A crônica perderia o fio da meada, no entanto. Não quero me ater a ícones ou seres de carne e osso - fictícios ou reais.
Quando têm um bom livro em suas mãos o que lhe atrai, além do gênero? A história em si, um indivíduo em especial? O que te leva a terminar o último capítulo, qual o veredicto?
Tudo depende do que se busca. A literatura depende do temperamento assim como as frutas que só vingam na estação propícia. O paladar humano pode, inclusive, dividir os gêneros segundo esta terminologia:
Morangos, cerejas, amoras (as frutas vermelhas):
Apresentam relatos tórridos como na saga wicca de Anne Rice ( "Lasher", o terceiro da série, é indispensável).
"O Trílio negro" (Marion Zimmer Bradley, André Norton, Julian May) é subdividido em três histórias interligadas, cada escritora redige a saga de uma gêmea. As três fogem no primeiro capítulo após a invasão do castelo e o assassinato dos pais. Seguem rumos diferentes de acordo com suas personalidades. Haramis é ambiciosa, Kadiya, rebelde, guerreira e Anigel, a frágil sonhadora. O caráter de cada dita seus rumos, sempre acompanhadas de seus fies protetores - e amigos - oddlings.
Uma lenda repleta de aventura, cobiça, intrigas, violência, crueldade, amadurecimento e superação pessoal.
Abacaxi, limão, acerola (os frutos cítricos):
Dissecam sentimentos mais profundos, langues. É imprescindível ter em mãos a tradução mais fiel de "Ievguêni Oniéguin"(Aleksander Pushkin), um exemplar que se preze de "Os três mosqueteiros" (Alexandre Dumas).
"Germinal" (Emile Zola) e "Servidão Humana" (W. Sommerset Maugham) transpiram realismo, tensão e acidez.
Pêssegos, mangas (as frutas carnudas):
Destacam-se pela sensualidade afrodisíaca através de cenas e diálogos convulsos, intensos.
"Muito barulho por nada" (William Shakespeare) se enquadra, assim como "As brumas de Avalon" (Marion Zimmer Bradley); "A Romana" (Alberto Moravia); "Gota D'água" (Chico Buarque) e inúmeros exemplos.
Cajus, Tamarindos (os frutos amargos):
"Cem anos de solidão" (Gabriel García Márques).
A epopéia de uma linhagem ao longo do século exalta todo o sabor da amargura, desconsolo e condição espiritual. Ao acompanhar a história de cada personagem desde o nascimento - a ascensão explícita em cada fase, a queda ou conquista derradeira - resta-nos o questionamento pessoal, a interrogação pungente da relação entre o individual e o plano exterior, a vida em sociedade. Põe em cheque vínculos sacros e profanos, fazendo-nos refletir acerca de nossa própria atitude e consciência unilateral.
Deixemos a natureza de lado (risos). Prosas, romances, versos e contos são capazes de transmitir emoções tão pungentes como as que vivenciamos dia após dia. Isto é fato consumado. Mas, no entanto, o que se espera da obra revela anseios intrínsecos a cada um.
Decerto algum personagem modificaria a forma como observam o mundo e as pessoas ao redor, mas o que desejam? Respostas, entretenimento sem conotações, identidade, amor, vilania, egocentrismo, comédias mundanas, sensualidade, mitologia, descrições analíticas, casualidade - o surreal, o concreto ou o abstrato?
A psique é um hall de idéias, palavras, sons e enquadramentos visuais. Um eixo que une descendência, aprendizagem e o eu translúcido, a matéria bruta. Seja qual for o instinto há uma raiz, uma fonte de pensamentos. Seja qual for a motivação, há um universo de encruzilhadas e bifurcações.
Fui seqüestrada por este universo de lirismo e indagação ainda muito jovem. Recordo-me perfeitamente de livros, filmes e peças que marcaram o subconsciente, enviando mensagens cifradas. Dissecá-las é a conseqüência da pluralidade de nossas mentes. É o princípio da solidariedade, da comoção pela vida alheia. É transpor barreiras estabelecidas por nós mesmos, compreendê-las e modifica-las.
Quem nunca disse a si mesmo o quanto a história de outrem se assemelha com os próprios descaminhos? Quem não se deparou com o homem e a mulher dos seus sonhos e esperou conhecer alguém que fosse exatamente assim?
No plano real, a fantasia é fantasia e ponto. Não há solo firme, é uma utopia, trâmite onírico. Quem já viveu intensamente sabe, melhor do que todos os psicólogos, físicos e etnólogos que a máxima não se sustenta.
Razão significa fincar alicerces. Ter os pés no chão implica em uma série de fatores: poder aquisitivo, definição de carreira, trabalho, afinco, frivolidade. Diz como um homo sapiens maduro deve agir e pensar. É o principio do capitalismo e da esquematização das massas.
No entanto, atire a primeira pedra quem nunca teve um dia de cão, surreal; quem nunca transpôs o plano físico, concreto e vivenciou um instante que fosse de pura magia.
Nada acontece por acaso? Ledo engano. É o acaso que move cada um de nós. É o acaso que nos renova e ensina. É o acaso que gera a consciência, a índole, que alimenta o prazer e marca o destino com nossas impressões digitais.
Se há algo de Divino eu não sei. Porém, a vida nos surpreende, abate, injetando doses de harmonia e caos. E não há nada de prosaico. Há um buraco negro imbuído de possibilidades e milhares de surpresas à espreita. Há a cisão entre dois planos. Aprender a dissociar um do outro é o que nos resta.
O misticismo que urge ao sabor dos ventos deseja apenas uma oportunidade, a chance de acontecer. É necessário ter olhos para vê-lo e olfato para senti-lo. É necessário acreditar na mediunidade encubada, correr riscos.
A vida é feitiço indigesto. Os que negam tal probabilidade impedem a si mesmo de irem além.
"Para abraçar seu irmão
E beijar sua menina na rua
É que se fez o seu braço
O seu lábio e a sua voz"
(Belchior in "Como nossos pais")
Ode
(Flavia Lopes, maio de 2004)
A vida, meus caros, é só um jogo,
Uma deliciosa brincadeira contínua.
Há margens falidas de erros e acertos,
Conveniências, indulgências, reticências.
No fim, resta apenas a inércia mística.
Há vilões sádicos e heróis verídicos,
Almas góticas, sem chão, sem fé.
A vida é assustadora, meus caros,
Não somos capazes de reinventá-la.
Os passos são leigos, as mentes cegas
E cada vestígio humano que possuíamos
É um membro amputado, tísico e frio,
Soterrado a palmos abaixo da terra.
Resta-nos o ingrato karma: seguir.
A vida é caos e fulgor; um blefe;
Um golpe de punhal, bons amigos!
Nossa sorte é destilada com as mãos.
Futuro é um espaço em branco, vazio,
Não difere berço, etnia, credo, sexo,
Pavimentamos cada légua e ciclo
- A felicidade é busca incessante.
"A violência é tão fascinante
E nossas vidas são tão normais
Você passa dia e noite
E sempre vê apartamentos acesos,
Tudo parece ser tão real
Mas você viu este filme também"
(Legião Urbana in "Baader-meinhof blues")
Flavia Lopes,
extirpado às 1:35 AM
Sábado, Maio 08, 2004
"Escuta, eu não quero contar-te meu desejo;
Quero apenas contar-te minha ternura;
Ah se em troca de tanta felicidade que me dás;
Eu te pudesse repor;
- Eu te soubesse repor -;
No coração despedaçado;
As mais puras alegrias de tua infância!"
( Manoel Bandeira in "O impossível carinho")
Calcanhar de Aquiles
(Flavia Lopes, Maio de 2004)
Uma simples palavra bem colocada ou elogio podem desmontar o mais forte dos seres. Aprendi a máxima ao longo do tempo ainda que a mesma me incomode e não se aplique ao meu ponto de vista. Creio que todos possuímos o nosso calcanhar de Aquiles.
Para alguns, é a exaltação de beleza física, para outros, a inteligência. Há os que se desarticulam com uma declaração de amor ou ao identificar-se com alguém.
Muda-se a o tópico - do mais fútil ao mais verdadeiramente humano - faço parte do segundo grupo, no entanto meu ponto fraco é outro...
Jamais me encantei por me julgarem atraente, muito pelo contrário. Ao invés de colocar minha auto-estima em ponto de ebulição apenas trazia a certeza de que não me conheciam realmente. Não sou feita de matéria bruta, talhada.
É necessário perceber o que há por detrás da aparência ou poema. Nossa língua é densa, prolixa, musical. Mas e o indivíduo que gerou tal crônica ou verso? Como estava se sentindo? Transmitimos a beleza através da idéia, do incentivo visual, falado ou escrito, no entanto, se nos aprofundarmos, veremos que a alma está ali, estampada, presente, desnuda em cada sentença, estrofe ou parágrafo.
Meu calcanhar de Aquiles? O AMOR pela vida como um todo.
Não me canso de exaltar meus amigos exatamente por isto, mas não poderia dizer que é o meu ponto fraco e sim, o meu eu verdadeiro, que poucos conhecem.
Amar a vida significa respeitar a individualidade de cada ser. Compreender que sentem dor, sofrem, desesperam-se, alegram-se, discutem, vociferam, perdem o controle, irritam - como todos nós.
Amar a vida significa não ver diferença na cor da pele ou credo escolhido, não fazer distinção entre humanos e não-humanos - afinal, a ciência classifica todas as espécies de acordo com a inteligência, destacando os seres mais aptos a sobreviver. Ainda que estejamos no topo da cadeia alimentar, somos também animais, sujeitos a instintos cravados em nosso âmago desde o princípio da evolução.
Emociona-me ao observar o amor de uma mãe pelo seu filho, ou de um animal por sua cria. Ao ser agraciada por demonstrações de carinho por entes, amigos, desconhecidos e os meus companheiros felinos. Ao perceber que, apesar de tudo, em uma sociedade calcinada e tragada pelo ódio, a inveja e a insensibilidade gradativa, há os que se importam e lutam por justiça, igualdade de direitos.
Há os que dedicam a própria vida a uma causa nobre e se necessário fosse, morreriam a fim de impedir um ato de crueldade e violência.
Há os que dão forma e vida às palavras e as talham com tamanha beleza que o mais insensível dos homens sentiria o impacto. Há os que se aprimoram nas mais variadas artes: cênicas, plásticas, mambembes, cinematográficas, esportivas, musicais, exóticas, fictícias, sensitivas, sociais, ambientalistas... não importa a carreira - humanas, exatas ou biomédicas - o que está em jogo é o amor e a crença, a certeza de que a beleza real supera e engole a barbárie.
"Não acabarão com o amor,
nem as rugas,
nem a distância.
Está provado,
pensado,
verificado.
Aqui levanto solene
minha estrofe de mil dedos
e faço o juramento:
Amo
firme,
fiel
e verdadeiramente."
(Manoel Bandeira in "Dedução")
Almejos cíclicos
(Flavia Lopes, maio de 2004)
Beber um cálice de vinho tinto,
Subir na árvore mais frondosa
E equilibrar-se nos galhos.
Cantar reinventando a voz,
Atravessar a rua com cautela,
Tomar um sorvete de pistache.
Desafiar injustiças face a face,
Guiar uma escalada deliciosa
E redigir poemas no cume.
Solucionar algum mistério,
Dizer o que se pensa, conter
O desdém de línguas afiadas.
Reviver cenas inesquecíveis,
Selar brigas com um beijo,
Munir-se de versos e lira.
Ter ojeriza a guerras frias,
Lutar com garras selváticas,
Proibir a degradação da fala.
Amar sem descatacterizar-se,
Resistir sem fragmentar-se,
Viver sem bestializar-se.
Fazer, tatear, construir,
Mergulhar na idéia vívida
E sorver a essência humana.
Meias-palavras
(Flavia Lopes, maio de 2004)
Palavras roubadas, convexas,
Sardônicas, graves, brutas,
Palavras descartadas, etílicas,
Jogadas ao vento, eróticas,
Palavras ressentidas, vorazes,
Contritas, silentes, ásperas,
Palavras em demasia, torpes,
Ilícitas, sonsas, cúmplices,
Palavras sem nexo, fictícias,
Atemporais, ferinas, cruas,
Palavras sorrateiras, densas,
Rítmicas, sensuais, cegas,
Palavras fora de tom, ébrias,
Roucas, ardentes, líricas,
Palavras libertas, errantes,
Antiéticas, fatais, ternas,
Palavras mudas, concisas,
Dóceis, literais, híbridas,
Palavras rasgadas, ácidas,
Místicas, tórridas, belas,
Palavras extintas, fugazes,
Improvisadas, poéticas,
Palavras sem fundamento,
Apaixonadas, exóticas,
Palavras em prol do amor,
Delineadas, resistentes,
Palavras em meio à guerra
Altruístas, reinventadas,
Palavras de apoio, idôneas,
Saudosistas, canhestras,
Palavras censuradas, nuas,
Reais, ásperas, críticas,
Minhas palavras em transe
Neste bloco de versos.
"Love the earth and sun and animals,
Despise riches, give alms to everyone that asks,
Stand up for the stupid and crazy,
Devote your income and labor to others ...
And your very flesh shall be a great poem."
(Walt Whitman)
Flavia Lopes,
extirpado às 7:31 PM
Quinta-feira, Abril 29, 2004
"Si te importa esta movida y quieres ser su voz
Ponte en guardia y dales caña, somos más de dos"
(Ska-P in "Animales de laboratorio")
¡¡Clandestinidad!!
(Flavia Lopes, abril de 2004)
Insensibilidade: apatia, calculismo mordaz, ausência de solidariedade. Indivíduos que há muito perderam a capacidade de sentir.
Algo que tem me roubado o sono é constatar o quanto as pessoas se tornam mais e mais insensíveis a cada dia.
Por exemplo, no ano passado assisti a uma apresentação belíssima de um grupo teatral carioca, Moitará. A peça, "Imagens da Quimera" é toda falada em japonês, mas para bom entendedor, bastam as expressões corporais, as atrizes são incrivelmente performáticas. Como insinua o título, a peça é o sonho da protagonista que roga aos Deuses para que estes lhe tragam sabedoria e força.
Na saída, antes de cumprimentar o elenco e os músicos, fui ao banheiro e lá encontrei duas senhoras emproadas, roupas cafoníssimas, maquiagem exagerada, como manda a regra. Isto não significaria absolutamente nada, apenas a conhecida e execrável elite, se não fosse um porém... ouvi o que estavam dizendo, com vozes bestas e sarcásticas (se ignorância pagasse imposto creio que as mesmas estariam a beira da falência):
- Que língua é essa que estavam falando, japonês ou chinês?
- Não sei, acho que não era nada.
- E a gente perdeu o show no Mistura Fina pra ver isso!
- (risos esganiçados)
Imagine o que diriam ao ver algum filme do Kurosawa....
--------------------------------------------
Pois bem, retomando o fio da meada...
Já repararam que ninguém se importa com a desgraça alheia? Tragédia é sinônimo de manchete no jornal. Assassinatos, guerras civis e militares, atentados, puro sensacionalismo barato de décima-quinta categoria sem nenhum teor jornalístico - é a chamada imprensa marrom. Acidentes em ruas e estradas? Motivo para aglomerações e palpites, as vítimas ficam em segundo plano, o que importa são os fatos que rolam e tomam proporções gigantescas de boca em boca.
- Você leu sobre o que aconteceu em tal estado? Um atentado deixou vários feridos. A Veja publicou fotos, que coisa, né?
- Ih, nem te conto. Ontem dois carros se chocaram na minha rua, acho que o motorista estava bêbado. Não sei quantos mortos, a família chegou pouco depois, choravam sem parar. Pra você ver como é a vida...
- Qual o quê, uma bala perdida atingiu uma criança. Culpa destes viciados que financiam o tráfico. Meu filho não bebe e nem fuma, é da geração saúde, lutador (só distribui porrada e quebra bares, mas o que tem demais? Ele é um bom menino).
- Um vizinho passou mal e foi internado as pressas. O burburinho tomou conta do prédio mas ninguém tem informação nenhuma, será que morreu?
E por aí vai...
Ninguém espera uma notícia boa. Se alimentam do que a mídia lhes empurra goela abaixo. Talvez por algum instinto mórbido capaz de diminuir as próprias frustrações e intempéries ou quem sabe este mundo, tão acostumado com o sofrimento e a dor, tenha lhes roubado a última gota de sangue quente e humano. Não sei...
A verdade é que não crucifico os programas sensacionalistas dos canais abertos. É claro que possuem uma boa parcela de culpa mas transmitem exatamente o que a população deseja ver. Exploram crianças aos prantos, famílias que perderam seus rebentos, a miséria e a degradação alheia como se tudo não passasse de um mero negócio. Imbuídos de um falso moralismo barato, vociferam contra as injustiças destacando o quanto este ou aquele são uma vítimas da sociedade. E vendem. Ganham rios de dinheiro. O melodrama surte o efeito desejado e sacia a fome de muita gente louca para descobrir quais crimes estão em voga no meio televisivo.
É certo que muitos entristecem, derramam lágrimas... como eu. Não que o baque da notícia apresentada ao publico de forma impactante me comova. O que fere é a exploração gratuita da dor, como se não bastasse tanto que já sofreram.
A Rede Globo, por exemplo, teve a imprudência de transcrever o nome do veneno usado para matar diversos animais no Zoológico de São Paulo. Resultado: cães e gatos foram assassinados pela mesma substância em edifícios e casas.
Há anos atrás um ônibus da Galoucura foi atingido por diversas garrafas de coquetel molotov. O que a Globo fez? Deu a receita instigando o ódio entre as torcidas. A propaganda ocasionou diversos atentados similares por todos os cantos do país.
O juiz, Siro Darlan, caiu matando quando o Marcelo D2 trouxe o seu filho para cantar ao seu lado no Hip Hop Manifesta (confesso que não sou fã nem dele nem do estilo). Foi caçado. Alegaram que fazia apologia a maconha sendo que a música nada tem a ver com a suposta erva maldita.
E o que vemos? A vereadora, Verônica Costa afirmando em cadeia nacional que adora meninos de 16 anos...
Os políticos flagrados com adolescentes foram tachados de pedófilos, ela não. Por quê? E aonde está o juizado de menores quando se precisa dele? Tudo farinha do mesmo saco, os que abusam de crianças/adolescentes e os que permitem a exploração...
Não consigo digerir tamanha hipocrisia.
A grande verdade é que hoje em dia tudo parece ter virado de pernas para o ar, os conceitos se inverteram.
O que antes era considerado insensibilidade agora chama-se ter os pés no chão, não se deixar abater. As explicações (leia-se desculpas) são inúmeras.
Amor: o vínculo mais profundo entre dois ou mais indivíduos. Substantiva-se através de elos de amizade, carnais e familiares. É relativo a todo e qualquer ser vivo capaz de despertar ou nutrir tal sentimento. Cães, gatos, seres humanos independente da cor, raça, credo ou patamar social.
O amor não escolhe moradia, não vê a tonalidade do uniforme adversário. Não exalta o nível intelectual e nem se restringe aos mais românticos. Pouco se importa com a opção sexual ou idealista, crava os dentes em preconceitos e batalhas. O amor, caros amigos, é a única palavra que jamais poderia ser dissecada. É o passado e o futuro. O agora.
"Disfruta de la vida y a follar, que son dos días
Y que nadie te reprima, rebelión contra la hipocresía
Iros a la mierda y dejadnos de una vez en paz "
(Ska-P in "Sexo y religión")
Astronomia
(Flavia Lopes, abril de 2004)
Fases da lua,
Almejo a solidão.
Me distancio, renovo
Em noites minguantes.
Na lua cheia, tu e eu,
Inventamos cenas,
Sorvemos beijos
Eróticos, trôpegos,
Roubados ou longos.
Madrugadas sublimes,
É a lua nova, conjunção,
O teu desejo, minha fome,
Minha luxúria, tua sede,
Nosso abrigo e fusão.
A garoa nos abraça,
O sol nos queima,
Recobramos a força
Vivendo o terceiro ato,
Entrelaçados e cônscios.
- Um dia? vinte e quatro horas
Bem vividas, intermináveis.
- Fase a fase? Harmonia plena,
Reação química aprovada.
Tempo real
(Flavia Lopes, abril de 2004)
Meu passado é cinza
O futuro, incerto -
Trâmite lúbrico,
Mistério, sedução.
Previ a nova história.
A compatibilidade mediúnica urge,
Realizando o destino em aberto.
Meu passado é vida,
A razão, prolixa -
Lira híbrida,
Conceito, idéia.
Prescrevi a sorte.
A intensidade literária me espacia,
Conduzindo o peregrino verso.
Meu passado é lenda,
O limite, infinito -
Vinho bacântico,
Cantiga, rebeldia.
Soergui a trajetória.
A fatalidade saudosista ressurge,
Ofertando poesia ao universo.
"No fronteras, no banderas, no a la autoridad
No riqueza, no pobreza, no desigualdad
Rompamos la utopía, dejemos de soñar,
Arriba el mestizaje, convivir en colectividad"
(Ska-P in "Mestizaje")
Flavia Lopes,
extirpado às 3:22 AM
Sexta-feira, Abril 16, 2004
"The city's aflood, our love turns to rust
We're beaten and blown by the wind, trampled in dust
I'll show you a place, high on a desert plain
Where the streets have no name"
(U2 in "Where the streets have no name")
Renascida dos mortos
Meu silêncio é um campo sem neve e sem geadas, floresce em pleno outono e no inverno, aquece. É como um banho de pétalas de rosa aromatizando o corpo, como o minuto de espera antes do mais belo eclipse lunar.
Não desapareci, ausentei-me... por bons motivos. Estou morta de saudades...
Porém, há uma gap incomensurável na minha vida. Precisava aproveitar o tempo livre que me resta (a madrugada é o período mais fértil) e investir na minha carreira, tanto como poeta e cronista, quanto como jornalista e, infelizmente, no funcionalismo público (o mar não está para peixe).
Retrospectiva ou livro aberto
Vivência
Fiz de tudo nesta vida, saboreei momentos de extrema alegria, engoli mágoas, errei, feri e recebi o troco ao cubo, rasurei meu nome em páginas mal-escritas, debates e causas familiares, travei batalhas contra injustiça, lutei.... e luto, sem pestanejar, sem refugar.
Vi conquistas antológicas no Maracanã e em São Januário, salvei a vida de 7 gatinhos e os adotei (minha grande conquista), conheci pessoas fantásticas que já não estão mais neste mundo e tantas outras que permanecem ao meu lado, amei e fui amada, odiei e fui odiada, encarei desafios de frente, resisti, fiz remo, boxe tailandês, ioga, natação, judô, dezenas de trilhas extenuantes e escaladas inesquecíveis.
Tive inúmeras noites tórridas, os diálogos mais longos e envolventes, as confissões mais ternas e impactantes, não tenho queixas. Agradeço a Deus por cada passo em falso, cada acerto.
Trabalho
Nunca cruzei os braços ou evitei trabalho. Houve um tempo em que passava menos de 5 horas acordada em casa, trabalhava 12 horas por dia, chegava morta, jantava, escrevia um pouco e caía no sono. Já fui intérprete, tradutora, colunista, designer (fui não, sou...no momento não-remunerada -risos), operadora de micro, gerente de loja, professora particular e ainda fazia uns bicos com as apresentações de um quarteto vocálico (já extinto). Sempre fiz questão de ter meu próprio dinheiro sem precisar da ajuda dos meus pais que não são ricos e já pagam uma exorbitância de contas. O que enobrece e molda o espiríto é o contato direto com a realidade.
Desfecho
É tempo de calmaria, descanso. O momento ideal para colher os frutos e adoçar os lábios, correr atrás do meu futuro. É claro que a escalada ainda faz parte da minha vida como sempre fará, encontrei-me no esporte, não há como descrever a sensação. Assim como o futebol é essencial e como meus gatos são a minha fonte de energia. Ah, claro, continuo adorando sexo... (risos)
O que derruba também constrói, o que instiga, alimenta. Implodi parte do meu dia-a-dia para construir, instiguei a mim mesma contra uma série de problemas e venho conseguindo excelentes resultados.
Estou me dedicando ao máximo, estudando como louca, buscando estabilidade financeira. A inércia me incomoda, fico irritada, nervosa.
É lógico que meu gênio continua forte, pavio-curto eu serei até o fim dos meus dias, mas agora, em 90% das vezes a causa é boa ou justa (risos).
Gostoso mesmo é amar, querer-bem, lutar com unhas e dentes compreendendo nosso dever como indivíduos em prol da cidadania e a máxima de que nada, mas nada mesmo, cai do céu, de mão beijada. É preciso construir os alicerces e fincá-los ao chão a fim de sustentar tanto o sonho quanto a realidade.
Compañeros
Flavinho jamais teria como agradecer por tudo o que fez e faz por mim. Você é o meu ponto de equilíbrio, minha âncora. Dizer que te adoro é pouco. Faço minhas as palavras de Leoni, "nada como eu e você".
Cinema, música, escaladas e trilhas, poesia, literatura, artes, teatro, ativismo político e ecológico, causa animal, felinicultura, egiptologia, história, futebol, rpg (etc, etc). Como duas pessoas conseguem ter a mesma opinião e o mesmo gosto? Seria até aceitável se nossas personalidades não fossem idênticas (risos). A única palavra no dicionário capaz de descrever tal relação é benção.
Pat, é priminha, desapareci por completo mas só online. Nosso vínculo continua forte e inabalável. Cansei de repetir o quanto admiro a sua força, garra e determinação, no entanto algo se destaca além de todas as qualidades: o caráter impecável e a sua bondade. Somos mais do que melhores amigas, o elo consaguíneo nos une. Ora, quem poderia escrever um livro com todas os fatos proibidos a respeito da minha vida? Shhhh... melhor nem comentar (risos).
Te adoro, menina. O Lipe tem a melhor companheira deste mundo... e vice-versa. Sinto-me extremamente feliz ao vê-los juntos... sete anos de namoro, esse casório saiu ou não sai?
Fred, como gostaria que a distância entre São Carlos e esta minha terra de ninguém fosse menor, assim teria o prazer da sua companhia.
Não canso de te agradecer por todo o apoio e incentivo... Te conhecer foi a melhor coisa que me aconteceu no último ano.
Engajei-me na causa animal por inteiro, lutei para abandonar conceitos (alimentares e espirituais) que desde sempre me afetaram negativamente graças a você e a sua história de vida.
Beijos grandes para ti e seus meninos, Lam e Corisco.
"¡¡La batalla es larga e son muchos,
pero nosotros somos muchos más,
siempre seremos muchos más!!
¡¡El mañana es nuestro, compañeros!!"
( Rosana Pastor como Blanca in "Terra e liberdade")
Matéria-prima
(Flavia Lopes, abril de 2004)
Da vida nada se leva,
Nem a roupa do corpo,
Remorso, inimizade,
Nem culpa ou rancor,
Ficha na delegacia,
Nem rastros, quedas,
Apólices, terrenos,
Nem conta bancária,
Desafetos, inveja,
Nem a silhueta bela,
Contratos ou ira.
De terreno resta o nome,
Herdeiros, lembranças,
Sonhos idealistas, amor,
Velhos companheiros,
Ambições desvanecidas,
Odes não publicadas,
Nostalgia vívida, ensejo,
Confidências verbais,
O ressentimento tardio,
Laços consumados,
E a saudade pungente.
Neste plano é necessário:
Cantar, sem falsetes,
Prever rasteiras sórdidas,
Incitar, sem refugos,
Surpreender adversários,
Lutar, sem covardia,
Proteger quem te estima,
Cair, sem desmaiar,
Remar contra as ondas,
Arder, sem feridas,
Impelindo a voracidade.
Rechaud
(Flavia Lopes, abril de 2004)
Madeira do oriente,
Flor de laranjeira,
Morango, nardo,
Verbena e mel,
Erva cidreira,
Uma essência
A cada instante:
Fenômeno carnal,
Terapia afrodisíaca.
Nesta ampulheta inconstante,
Há declarações extasiadas
Em meio aos grãos de areia.
Banquete corporal
Ao cair da noite!
Quantos beijos
Esfomeados,
Atemporais,
Tempestivos
De madrugada
Sob a garoa fina,
Úmidos, indecentes!
Neste banquete aromático,
Há massagens tântricas
Em carícias intermináveis.
"A movement is accomplished in six stages
And the seventh brings return
The seven is the number of the young light
It forms when darkness isn't creased by one"
(Pink Floyd in "Chapter 24")
Flavia Lopes,
extirpado às 1:26 AM
Sábado, Março 27, 2004
"E se eu achar tua fonte escondida
te alcanço em cheio o mel e a ferida
e o corpo inteiro como um furacão,
boca, nuca, mão e a tua mente não..."
(Cazuza in "Todo o amor que houver nesta vida")
Confraria literária
O blog não morreu, caros amigos. Estive literalmente fora do ar, meu pc teve sua primeira crise da meia-idade, fizemos o possível e o impossível para recuperá-lo (trabalho em equipe, Flavinho, meu irmão Alexandre e a proprietária, ou seja, eu). Fora a reinstalação do windows, os drivers que precisei baixar e o falecimento do modem, acredito que solucionamos 90% dos problemas. Se tudo correr bem comprarei um novo pc em abril, peça a peça, é claro.
De volta ao universo de teclinhas confesso, há muito o que dizer. Estou feliz, correndo atrás do meu futuro, infelizmente deixei o ativismo um pouco de lado nestes descaminhos, mas estou de volta com toda força e garra.
Há muito o que fazer. Inúmeras batalhas, tanto pessoais quanto acadêmicas - uma está visceralmente ligada a outra - me aguardem... instantes significam tempo em branco. É necessário lutar, arcar as costas, ranger os dentes.
Um cataclisma de bons fluidos, transparência nua e predomínio de ideais adoçam esta madrugada. Quando o sentimento fala mais alto e a razão coexiste, o melhor é cerrar os olhos e entregar-se por completo.
Inércia espiritual
Justiça é uma palavra que vive dançando nos lábios das mais variadas tribos ou crenças. É justiça que pedem ao serem vítimas de impropérios, ao depararem-se com a intransponível barreira do preconceito. É justiça que exigem ao perceberem o caos a seu redor, ao perderem um ente ou amigo querido, ao sofrerem com a violação de seus direitos. Tal revolta evoca a mais descontrolada ira... e é bom que seja assim.
Mobilizações de grande impacto são geradas por uma ou duas pessoas atraindo novos adeptos que sobreviveram a experiências semelhantes.
O grande dilema é aprender olhando à nossa volta. Quando a ferida exposta é alheia raramente assumimos uma postura solidária. Se o assunto em questão é a violência contra animais... sai de baixo, aí mesmo que poucos se importam. Os que tanto sofrem pelas mazelas da vida estancam os passos e garantem que a situação é extremamente diferente - o grande dilema costurado no âmago de tantos: animais versus humanos. Como se a dor não fosse idêntica, como se os nervos, músculos e cérebro não atingissem o sistema nervoso exatamente da mesma forma.
Qual o que! Importar-se com seres ditos irracionais? Há anos sou voluntária em casas de saúde, orfanatos, asilos e tudo o que conheci foi abandono, descaso, solidão. Não se importam com o próprio sangue, o vínculo familiar. Há os que regozijam-se com a desgraça alheia a fim de diminuir o próprio vazio e desconsolo, para estes quase toda forma de vida é substituível, ultrapassada ou de pouca valia.
Pergunte-se... de que estaria disposto a abrir mão para salvaguardar a integridade física e mental de parentes, irmãos (de sangue ou não), todo e qualquer ser considerado imprescindível?
A resposta é o diagnóstico, basta avaliar.
Pimenta nos olhos dos outros...
O que leva transeuntes a circundar locais de acidentes, desabamentos, incêndios e etc? É uma faca de duas lâminas: a primeira denota o instinto, a vontade de descobrir o que está havendo; a segunda, uma curiosidade mórbida inexplicável.
Será que esta gente compreende o significado de amor? Amor incondicional, que não traz benefícios financeiros ou cicatriza mágoas?
Ressentir-se ao ver outrem com o peito dilacerado, em prantos é raridade. Bebem a dor alheia a fim de aplacar a própria inércia e vulnerabilidade. A fim de esconder falhas de caráter inomináveis e vexatórias.
Eu? Prefiro remar contra a maré da hipocrisia. Quero a vida no sentido mais amplo, busco plenitude e felicidade, mesclada não somente aos que significam tanto e sim a cada ser, evoluído ou não. Estaria disposta a dar a minha vida de bom grado se o bem justificasse o martírio.
Veneno no cálice dos outros é aceitável segundo a maioria. Encham o mesmo até o topo... beberia sozinha sem ofertá-lo a terceiros.
Conquista... não é sinônimo de pisar, é fortalecer o dom intrínseco desde o limiar dos tempos em cada um.
Elementais
O imprescindível para a minha sobrevivência bem poderia dividir-se em cinco elementos:
Fogo: Convulsões líricas pungentes, erotismo e sensualidade, desejo, História, artes, música, poesia, cinema oriental/europeu, futebol.
Ar: Sonhos delirantes, reflexões sativas, diálogos inteligentes, autocrítica, lua cheia, ventanias.
Terra: Ativismo ecológico e político, proteção animal, escaladas, trilhas, acampamentos, viagens.
Água: Mergulhos em pleno mar aberto, garoa fina, biologia marinha, tempestades bravias.
Coração: Amizade, herança genealógica, meus gatos, amor, respeito, solidariedade, harmonia plena.
Obs.: Qualquer semelhança com o Capitão Planeta é mera coincidência (risos).
Tête-à-tête
Estou em débito com vários amigos, preciso remediar a situação urgentemente... peço mil desculpas, tanto para os que visitam este meu espaço quanto aos companheiros de longa data e os novos guerrilheiros que tive o prazer de conhecer nos últimos meses. Tempo é relativo quando o assunto é vínculo afetivo. Conheci personalidades fantásticas e desde já imprescindíveis em 2003, sem desmerecer, contudo, quem permanece ao meu lado até hoje - é felicidade em dobro, isto sim.
Nada de beijos especiais desta vez, deixo impressa a falta que sinto e a certeza de que bons ventos açoitam cada janela adocicando meu paladar. É a bonança, premissa de arco-íris e longevidade compartilhada.
Metafórica, eu?
É bem verdade, estou pra lá de misteriosa ultimamente, para bom entendedor meia palavra basta... e olha que escrevi um bocado (risos).
Metáforas a parte, transpus o que estou sentindo, não poderia ser de outra forma... sonho, realidade e talento coexistem. Realidade sem talento é incoerente, talento sem a eloqüência do sonho é regressão espiritual.
A linha que separa cada um é ilusória. Desnudo-me entre sentenças e versos.
"Mais, quero mais,
nem que todos os barcos
recolham ao cais
que os faróis da costeira
me lancem sinais,
arranca a vida, estufa a vela,
e leva, leva longe, leva, leva mais"
(Chico Buarque in "Vida")
Cromoterapia
(Flavia Lopes, março de 2004)
Naquele tempo de maturidade pouca,
Minha língua adoçava o céu da boca
Em invernias sob o manto escuro,
Dedos prescreviam meu futuro.
Troquei a inércia pela boemia,
Pavimentando a minha sorte,
Absorvi longos beijos proibidos,
Desintegrei meus idílios contidos,
Buscando alguma forma de contato,
Confabulei analisando o tempo exato,
Rangendo os dentes, proibindo a lira
Fazendo uso do verso e da mentira:
Paciência - a sentença de morte,
Espera - sinônimo de agonia.
Veias pulsam burlando a lei,
Já não quero perfeição ou retas,
Meu corpo se desfolha em pétalas,
E bem me recordo de tudo o que falei.
Quantos anos faz? O presente é agora!
Sussurrei poemas fora de tom e hora:
Basta de correntes e desencontros,
Revivi meu passado em contos.
Hoje planto frutos silvestres,
Enamoro o cálice pacifista,
Trago sedutoras vestes
Para que me dispa.
Trova sazonal
(Flavia Lopes, março de 2004)
A dança do sol me desestabiliza,
Ora emano seus raios, embevecida,
Ora rezo para deuses da tempestade.
Esta pele bronzeada é quente,
A palidez é também incendiária -
Devora o interior do peito nu!
Calor é a fome de cada ser,
Desejo que nos faz arder,
Pira fatal e reincidente.
E as ventanias possantes,
Circundando jovens amantes
A ponto de suspendê-los no ar?
Usar o clima a meu favor
É tarefa lírica, indolor,
Meu refúgio e meu agravo.
Hoje estou ciente, desnuda,
Nada me retém ou muda,
Sigo vivendo a céu aberto.
"Quero me encontrar mas não sei onde estou,
vem comigo procurar algum lugar mais calmo,
longe dessa confusão
e dessa gente que não se respeita,
tenho quase certeza que eu não sou daqui"
(Legião Urbana in "Meninos e meninas")
Flavia Lopes,
extirpado às 10:39 PM
Sábado, Março 13, 2004
"All our progress is an unfolding, like a vegetable bud. You have first an instinct, then an opinion, then a knowledge as the plant has root, bud, and fruit. Trust the instinct to the end, though you can render no reason."
(Ralph Waldo Emerson, 1803-1882)
Biografia
Fevereiro de um ano bissexto... putz, vou te contar! Crendices a parte, o misticismo bate à porta dos mais sensitivos. Inúmeras foram as coincidências (das prosaicas às mais impossíveis), acontecimentos traumáticos inimagináveis, declínio e ápice, descoberta, aprendizado, mudança, alegria, sorte, conjunção.
Idade média - tristezas, harmonia, desejo, sedução, fatalismo e cicatrizes em alinhamento - o presente esbalda-se no Olimpo, bate à porta das sete chaves embriagado de ambrosia.
Basta de quedas sistemáticas. Ascensão e nirvana possuem um teor apelativo mais interessante, não concordam?
Prós e contras
Punhaladas tanto ferem quanto curam e vez por outra anunciam a bonança. Como disse Vinícius , "pra fazer um samba com beleza é preciso um bocado de tristeza senão não se faz um samba não".
Elemental do Fogo
Frio na espinha, imã positivo, convulsão extrasensorial, ápice,, entrosamento, luxúria, recomeço, fagulha, mímica, nirvana, língua tântrica, confraria seletiva. Bons fluidos polinizam o agora.
Caderno de rascunhos
Retorno não significa débito de sangue, obrigação, regra de conduta e sim o oposto: a percepção mais nítida de quem você é na realidade aos olhos de outrem. Significa acima de tudo entrega. Quem ama é crítico e não benevolente, adestrado. É uma bomba-relógio com trava no ícone de autodestruição e jamais será necessário clicá-lo enquanto houver respeito, harmonia, compatibilidade, delírios sedutores, química, completicidade, união.
Nota
Caríssimos, não temam. A repressão sexual moralista feneceu, restam os puristas às avessas (o velho hábito de agir por debaixo dos panos, degradar o caráter, investir em benefício próprio, reverter-se com a mais fina camada de orgulho demonizando grupos sociais). Encruzilhadas multiplicam-se ao longo do caminho mas a escolha é opcional, ninguém dita regras, não somos marionetes indefesas, sem consentimento e refugo não há manipulação.
A melhor saída é rebelar-se. Não permitir que lhes digam o que fazer, como se portar. Certo e errado, ato benéfico ou pernicioso. A liberdade termina quando ferimos o direito à vida. Quando a forma de agir diz respeito unicamente a nós mesmos, ora... às favas com toda essa pieguice retrógrada. Obstáculos refletem a índole de cada um, transpô-los é evoluir, amadurecer.
Medicina alternativa
Bom mesmo é se apaixonar, sonhar, lutar com unhas e dentes visando não apenas um futuro lucrativo (afinal estabilidade financeira é necessária, sem dúvidas) mas focalizando cada átomo, cada partícula nesta ambição pra lá de ousada e rara: felicidade.
E quem pode ser inteiramente feliz sem amor? Resta tão somente o vazio preenchido com ganhos e conquistas, relações sanguessuga impessoais. No desenrolar da trama (aventura, épico, sci-fi, ação, romance, comédia - os protagonistas ditam o gênero) o enredo se transforma em um mosaico de cenas mal editadas, não há data ou encadeamento de idéias apenas um emaranhado de fatos consumados de pouca importância.
Prescrição? Entregar-se... abandono físico (e não moral), viver intensamente.
Vida real
Metáforas a parte, fiz uma penca de coisas neste último mês. Errei, confesso. O numero de acertos é infinitamente superior. Entre prós e contras, declives e pináculos aprendi e muito... digamos que um incidente desviou meu rumo na estrada.
Verdade seja dita, citando novamente outro grande poeta "consegui meu equilíbrio cortejando a insanidade" (Salve Renato Russo)
Misteriosa, eu?
Puxa, se fosse contar os meus dias tim-tim por tim-tim afirmo que o post teria mais informações (sucumbindo à câmeras radioativas) e pouco sentimento.
Quem descreve literalmente cada passo, trajetória e curva jamais explicita o impacto que os mesmos causaram. Dor, angústia, êxtase, alegria... o que estão sentindo, o que aprenderam? Refletir e ponderar é mais intrigante, tanto para o interlocutor quanto para o ouvinte.
Penso também que evocar tal dia ou instante, destacando milimetricamente o ocorrido, restringe. Fatos tornam-se manchetes e perdem a essência vital. O que nos leva a destacar algo de suma importância? Meus dedos transpiram e falam por si.
Além do mais é como se estivesse selecionando visitantes. A intenção deste blog é transmitir o que penso e sou aos que me conhecem e aos navegantes que descobrem esta alcova.
"The only way of full knowledge lies in the act of love: this act transcends thought, it transcends words. It is the daring plunge into the experience of union."
(Erich Fromm, 1900-1980)
Distorção visual
(Flavia Lopes, março de 2004)
Meu santuário é solo frutífero,
Comanda a força dos ventos.
Nele meu pulso dita as cartas,
Faz o que bem entende do jogo,
Decodifica meu passado e futuro,
Sorve linhas de cânticos rarefeitos,
Mistura línguas ferinas e cortejos
Num caos libertário dominante.
Ora, vamos! quanta falácia!
A verdade é o oposto,
O que ninguém vê!
Meu santuário é taba inviolável,
Absorve a mágoa dos tempos.
Nele meu silêncio assume a voz,
Entoa versos gerados com sangue,
Intensifica a solidão de meus passos,
Remonta a árvore genealógica familiar,
Funde sentimento, gratidão e desejo
Nesta minha guarida contraditória.
Sim, há dois lados aparentes:
Primeiro, é visão alheia
Segundo, quem sou.
Magnetismo
(Flavia Lopes, março de 2004)
Tu, fantasma desconhecido
Eu, ermitã de luz e velas
Tu, companheiro incerto
Eu, volatilidade pagã
Tu, juventude madura
Eu, insânia calejada
Tu, passageiro distinto
Eu, maquinista cega
Tu, indecifrável amigo
Eu, enigma pérfido
Tu, distância utópica
Eu, corpo exposto
Tu, desejo confidente
Eu, amálgama nua
Tu, fome adormecida
Eu, gesto incisivo
Tu, docilidade voraz
Eu, carícia lúbrica
Tu, redoma elétrica
Eu, requiém ácido
Tu, presença híbrida
Eu, fé inconstante
Tu, amor esfaimado
Eu, solidão rouca
Tu, insanidade vespertina
Eu, frenesi corpóreo
Tu, juventude e descoberta
Eu, fragrância atemporal
"There is pleasure in the pathless woods, there is rapture in the lonely shore, there is society where none intrudes, by the deep sea, and music in its roar; I love not Man the less, but Nature more."
(Lord Byron 1788-1824)
Flavia Lopes,
extirpado às 3:28 AM
Quinta-feira, Fevereiro 19, 2004
"You should respect each other and refrain from disputes; you should not, like water and oil, repel each other, but should, like milk and water, mingle together."
(Buddha (Sidharta Gautama), 583-463 b.C.)
Não publico há mais de duas semanas, bem sei... Digamos que fevereiro de um ano bissexto honra a tradição (tanto pela carga negativa quanto positiva) ao menos para mim.
Engavetei dezenas de relatos, tenham paciência (risos), bilhares de coisas aconteceram num espaço mínimo de tempo, descrever tamanha gangorra emocional seria impossível.
Inércia a parte, cá estou, um tanto sem espírito para explorar meu dia-a-dia nas últimas semanas, inspirada, como sempre...apenas um tanto reflexiva demais.
Beijos especiais para os que fazem tudo valer a pena: Flavinho, Paty, Naty e Fred.
Sem papas na língua, existe um universo de palavras à espreita, pulsando... e foi o que me inspirou a escrever o dicionário (afora todos os acontecimentos deste mês).
Um dia possui apenas 24 horas, quantos séculos podem ser contidos em um instante? Quantos cataclismas de angústia e êxtase em frações de segundos?
Yargh! aconselho passar longe do Sambódromo e da Presidente Vargas, trânsito caótico e ambiente irrespirável. Me refugiei na casa do Flavinho trazendo os gatinhos a tiracolo.
Ah, quem dera rever o desfile da Vila em 1988, com o belíssimo samba-enredo "Kizomba, a festa da raça" ou "Direito é direito", no ano seguinte. Carnaval hoje em dia é sinônimo de bebedeiras homéricas, degradação cultural, marketing publicitário, turismo (de viagens familiares ao degradante "lazer pessoal"). É fuga da realidade, assassínio de instinto, tradição, patriotismo... não honra ou relata a nossa história.
"É hora da verdade
A liberdade ainda não raiou
Queremos o direito de igualdade
Viver com dignidade
Não representa favor"
(G.R.E.S. Unidos de Vila Isabel in "Direito é direito")
Um novo dicionário
Amizade:
O que abranda toda e qualquer mágoa, dilacera injustiças, transmite a paz derradeira, transformando guerra em santuário, solidão e angústia em paz de espírito. O que multiplica alegrias, solidifica laços e intensifica a boa índole.
Beijo:
A cura para quase todos os males, o que renova e fortalece o espírito.
Beleza:
Influência transitória quando se refere a seres humanos, eterna quando descreve a natureza tanto física quanto espiritual: animais, florestas, montanhas, obras de arte, escritos, música, homens e mulheres. Tudo o que não busca aceitação ou elogios, tudo o que transcende e sobrevive na memória intacta.
Bem maior:
Amar toda forma de vida, compreender que sentem fome, depressão, ciúme, saudade, receio, medo, ansiedade, fome, preguiça, dor... como todos nós.
Consciência:
Aprender a discernir o que é benéfico não apenas para nós mesmos e sim para todos os que habitam o globo terrestre.
Dom:
Característica referente ao indivíduo, o que nos unifica e difere ao mesmo tempo, resgatando a identidade.
Equilíbrio:
Fusão de sentimento e raciocínio que imuniza cargas negativas e aflora o que há de melhor no espírito.
Família:
Benção sacra ungida por Deus, a raíz inquebrantável que alimenta o caráter e aprimora a essência de geração a geração.
Força:
Carga elétrica positiva de altíssimo impacto, o que desencadeia a luta, seja qual for.
Futuro:
Peça indefinida de um gigantesco quebra-cabeça. A figura completa surge apenas quando conseguimos encaixar todas no desenrolar da trama.
Genealogia:
A história mais densa e completa de um ser, fonte de energia inesgotável restituindo a memória, doutrinando cada passo.
Humor:
O ponto de equilíbrio necessário. É preciso rir, gargalhar para diminuir o peso da existência.
Incentivo:
O que impulsiona e germina o talento existente no peito de cada um.
Lei:
Há os que dizem que é como gripe, umas pegam, outras não. Afora o código penal, refere-se a normas de conduta geradas ainda no berço, sem imposições sociais e discriminações. É a sublimação da consciência de um indivíduo, o despertar.
Moral:
Conceito mutável de ampla divergência óptica. O que pode julgar, atropelar, invadir ou proibir abusos, injustiças, violências físicas e espirituais.
País:
Tudo o que nos rodeia: pessoas, sotaques, diálogos, regiões, clima, política, ideologias, religiões, pobreza e abastança, história, relacionamentos. Toda criação mística ou humana. O sangue que pulsa em cada veia nutrindo-nos através de intempéries e alegrias.
Realidade:
Condição transitória que separa a fantasia do concreto frio.
Respeito:
O vínculo mais forte entre dois ou mais seres vivos. É aceitar diferenças em prol de um convívio harmonioso, nunca julgar (autocrítica é bem-vinda e necessária também), é reconhecer o próprio espaço e o de outrem, jamais difamar o nome de quem confia em você, a base de qualquer relacionamento, afetivo ou não.
Sonho:
de que os homens possam redescobrir a sensibilidade e o instinto de caridade, a fim de garantir-lhes o direito de se considerarem humanos.
Tempo:
Deslocamento de horas e espaço, sem relógios ou limite preestabelecido.
União:
Impérios decaíram, guerrilhas se dispersaram, adultos cederam a pressões tornando-se cada vez mais distantes, crianças foram induzidas à padronização, jovens criaram novas tribos em busca de identidade pela ausência desta palavra que significa tão somente Lealdade.
"All thought is a feat of association; having what's in front of you bring up something in your mind that you almost didn't know you knew."
(Robert Frost, 1874-1963)
Espelho
(Flavia Lopes, fevereiro de 2004)
Silente como a garoa fina
Orvalhando a terra renovada,
Rubra como meu sangue
Tingindo o coração de versos,
Intensa como meu pulso
Revelando o santuário ébrio,
Dolente como rios de mágoa
Bipartindo a veia incendiária,
Lúbrica como ápice tântrico
Sorvendo o néctar atemporal,
Tenaz como meu raciocínio
Inibindo o ponto de equilíbrio,
Carnal como o amor lascivo
Anunciando elos predestinados,
Trôpega como meu destino
Comprimindo o peito benfazejo,
Voraz como a fala poética
Envernizando a madeira crua,
Impaciente como meu pulso
Restituindo paixões derradeiras,
Espiritual como o romantismo
Inspirando elos utópicos,
Ferida como meu cansaço
Destruindo a consciência plena,
Loquaz como a agonia cega
Rasgando valores enfraquecidos,
Insólita como meu degredo
Consumindo a harmonia do sono,
Noctívaga como vampiros
Saboreando a essência humana,
Tântrica como a liberdade
Resistindo intempéries cruas,
Lúbrica como meu instinto
Atiçando o fogo incandescente,
- Tão somente o meu espelho
Refletindo a imagem verdadeira.
"There is a land of the living and a land of the dead and the bridge is love, the only survival, the only meaning."
(Thornton Wilder, 1897-1975)
Flavia Lopes,
extirpado às 4:17 AM
|
Sativos
Online
¡¡Manifesto Libre!! (meu blog jornalístico)
Refuge of a Poetic Damsel (meu outro
blog)
Hoje estou:

159591960
Participe! Mande um
e-mail!
TYPE
Identificação: Flavia Lopes
Alcunhas: Flavinha,
Milady, Padawan, Flavíssima
Gênese: 24/05/1978
Habitat: Rio de
Janeiro, RJ
Essência:
Carioca
Mapa Astral:
Sol: Gêmeos
Ascendente: Libra
Lua: Capricórnio
FRIENDS WILL BE
FRIENDS
Fiéis escudeiros: Paty, Flavinho, Raph, Léo, Lucas Marcelo &
Dandy
HEAD OVER
HEELS
Paixão Futebolista: Vasco da Gama
Boleiros: Ademir Menezes, Nilton Santos, Garrincha, Bellini,
Heleno de Freitas, Augusto, Orlando Lelé, Roberto
Dinamite, Juninho Pernambucano
Adrenalina: Escaladas, trilhas, boxe tailandês
Refúgios: MNBA,
Floresta da Tijuca, Biblioteca da Estado, Parque Lage, Joatinga,
Prainha
A SAUCEFUL OF
SECRET
Comida: Oriental & árabe
Bebidas:
Matte, Coca-light, Vodka russa e polonesa
Cores: Azul, bege,
branco e roxo e preto
Odeio: Mentiras,
falsidade, intrigas, americanismo e repressão
Amo: Gargalhadas
repentinas, ativismo, exaustão, desejo, insônias poéticas, sentidos
apurados
Infusão Cinéfila:
"Asas do Desejo" (Wim Wenders)
"Os Sete Samurais" (Akira Kurosawa)
"Nenhum a Menos" (Zhang Yi-mou)
"Dr. Fantástico" (Stanley Kubrick)
"Monty Python em Busca do Cálice Sagrado"
(Terry Gilliam)
"Carne Trêmula" (Pedro Almodóvar)
"Terra e Liberdade" (Ken Loach)
"A Princesa e o Guerreiro" (Tom Tykwer)
ISOLATION
Livros: Servidão
Humana, W. S. Maugham
Os Três Mosqueteiros, Alexandre Dumas
Cem anos de solidão, Gabriel García Márquez
Poetas: Bandeira,
Lorca, Maiakóvski, Murilo Mendes, Florbela Espanca, Alphonsus de
Guimaraens, Fagundes Varela, Pablo Neruda, Bertold Brecht, Pushkin,
Herman Hesse, Borges, E.E. Cummings...tantos!
Escritores: Clarice
Lispector, Gabriel García Márquez, W. Sommerset Maugham, Alexandre
Dumas, Dostoyevski, José de Alencar, Miguel Piñero, Rachel de
Queiroz.
Compositores: Chico
Buarque, Carlos Lyra, Toquinho
Bandas: Queen,
Joy Division, The Smiths, Buzzcocks, Dire Straits, Supertramp, Cordel
do Fogo Encantado, Ska-P, Pink
Floyd, The Doors, Bauhaus, The Clash, Men at Work, Midnight Oil,
R.E.M., INXS, Living Colour, Kiss, Tears for Fears, The Police,
Black Sabbath, Toy Dolls, Café Tacuba, Control Machete, Legião
Urbana, Ultraje a Rigor.
VIRTUAL INSANITY
Balaio de
Gatos
The Blousosnoir
Canis Familiares
Django Brother
Diário de um amante do metal
À Esquerda do Cristo Redentor
Idiota
Online
Ndoye's
Blog
Queda!
RonalD Golias is watching you
The Book of Shadows
The
Real Ronald
O Vampiro
IN BLOOM
Grande Sertão
Poesias Online
Releituras
Textos Para
Reflexão
Torre de Menagem
GUERRILLA RADIO
Caros
Amigos
Carta Capital
Correio Cidadania
Grito!
Ibase
Indy
Midia
La
Jornada Virtual
Novae
Site Nacional do
PT
Site
Nacional do PC do B
Zero
Fora
CIVILIZED MAN
APASFA
Planeta
Gato
SUIPA
SLEDGEHAMMER
100 Filmakers
Catharton
Cine
Guia
Contracampo
Imdb
I LOVE IT LOUD
Batanga
Bauhaus
Lyrics
Besouros.net
Chico
Buarque
Gene Loves
Jezebel
Joy Division
Punk Lyrics
Punk Net
Queen
DEVIL INSIDE
Cartoon Resorce Website
DND World
Hanna &
Barbera
HEAVY FUEL
CR Vasco da
Gama
Força Jovem
Terra da
Gente
Trilhas
Online
Xaos Climb
ARQUIVOS
CRÉDITOS
Flavia Lopes
|